Insuperável em sua forma pura, incondicional e verdadeira de expressar seus sentimentos, assim é o amor de mãe! Mãe que merece todo nosso carinho e gratidão, não apenas no seu dia de cunho comercial, mas todos os dias do ano, por toda nossa vida.
Que Deus abençoe todas as mães! Muita saúde e felicidade a todas!
No dia dedicado às mães, o Balcão da Etimologia foi visitado por famílias ávidas de conhecimentos... é a família buscando suas origens vocabulares.
Mama, papa... podemos pensar que a origem dos vocábulos mãe e pai seja onomatopaica?
Interessante é a análise etimológica do editor da Revista Língua Portuguesa (Editora Segmento), Luiz Costa Pereira Junior, para os vocábulos que formam a família.
Pai e mãe geraram palavras similares em muitas línguas. A origem de pai português é o acusativo patre, do latim pater e do grego pater. O alemão tinha bater; o persa, pitar; o sânscrito, pita. O latim mater gerou as formas arcaicas mare e madre antes de formar mãe. O grego era meter; o alemão, mutter; o persa, matar; o sânscrito, mata.
Esse casal sempre foi a base da família. Entretanto, o conceito de família mudou muito com o tempo. Na antiguidade romana, o latim famulus era um dos vocábulos para “escravo”. Famulia era o grupo de escravos. Para os romanos, mais importante era a distinção econômica dos parentes, pois os laços sanguíneos eram relegados a segundo plano. Ainda hoje, muitas pessoas ainda preservam esses hábitos.
Então, a sociedade romana classificava seus habitantes com base na riqueza de cada um. Daí a razão de proletarius, indivíduo que, sem riqueza alguma, era classificado pelas autoridades apenas pelo número de filho (prolis) que tinha.
Atualmente, prole, segundo o Houaiss: 1. conjunto de pessoas que descendem de um indivíduo ou de um casal; descendência; 2. conjunto dos filhos e filhas de um indivíduo ou de um casal, humano ou não.
Proletário, ainda segundo o Houaiss: 1. na antiga Roma, cidadão da última classe social, que não pagava impostos e era considerado útil apenas pelos filhos que gerava. 2. (Hoje em dia) cidadão pobre que só tem para viver a remuneração insuficiente da sua força de trabalho.
Essa motivação que unia os parentes na Antiguidade, as riquezas materiais, sempre esteve presente nas sociedades dos séculos seguintes. Basta lembrar como parte dos casamentos europeus medievais eram contratos de compra e venda, com dotes e acertos.
Será que a sociedade atual se comporta muito diferente de nossos antepassados?!
Numa mesa da LanchoNET, amigos de Doroteia, comemoram sua aprovação no concurso do Instituto Rio Branco, para a carreira diplomática. Dorô, para os íntimos, é uma fluente poliglota e revelou uma dúvida diante de expressões cotidianas. Em seu contato com outras línguas europeias, percebeu que os nomes dos dias da semana são bem diferentes dos nomes adotados pela língua portuguesa. Sim, são nomes que remetem às divindades pagãs/planetárias, latinas ou bárbaras. Assim, temos:
segunda-feira é o dia da lua (lunes, lunedi, lundi, monday, montag); terça-feira é dedicada a Marte; quarta-feira, a Mercúrio (ou a Odin, wednesday); quinta, a Thor (thursday) ou a Júpiter/Jove, ao trovão (donnerstag); sexta, a Vênus ou Freya. O sábado e o domingo preservam em algumas línguas nomes cristãos ou são dedicados a Saturno (saturday) ou ao Sol (sonntag, sunday).
O Papa João Paulo II, em sua Carta Apostólica Dies Domini, Nota 22, observou que a língua portuguesa é a única a preservar os nomes cristãos dos dias da semana.
Essa minha afirmação gerou uma confusão entre o pessoal. Todos, com feições interrogativas, questionaram uníssonos: Como??!! O que segunda-feira tem de cristão??!!
Feria em latim é a palavra para “festa”. Segundo o teólogo Josef Pascher, para a liturgia, todo dia é dia de festa e, por isso, a liturgia chama o dia comum de feria...
Festa porque o culto cristão se realiza em meio à criação: toda a criação é em cada missa oferecida ao Pai. Assim, a liturgia fala em feria, em festa, porque em vez das superstições dos astros e das mitologias, celebra a Cristo.
Dicionário Houaiss: Liturgia – 1 o conjunto dos elementos e práticas do culto religioso (missa, orações, cerimônias, sacramentos, objetos de culto etc.) instituídos por uma Igreja ou seita religiosa 2 conjunto das formas (palavras, gestos) utilizadas na realização de cada um dos ofícios e sacramentos; rito
Comentando o Salmo 93, Santo Agostinho diz: “O primeiro dia depois do sábado é o domingo, dia do Senhor; o segundo é a secunda feria, à que os profanos chamam Lunae diem; (...) Não admitamos isto! Oxalá se corrijam e abandonem este modo de falar e usem a linguagem que é nossa (...) pois Cristo aboliu as superstições.”
São Tomás de Aquino ensina que o domingo é a “primeira feira”, prima feria, por causa da Páscoa: assim como o Gênesis começa com o dia, a Páscoa em que principia o mistério da nova criatura e se renova a face da terra é o Dia, a Feria.
A frequência do uso da linguagem comum acaba por tornar invisível o significado original e o alcance das palavras. Poucas pessoas param para pensar a razão do uso de certos vocábulos e expressões.
A linguagem pode ter um alcance muito maior do que aquele que supomos à primeira vista. A partir da análise dos nossos dias da semana, podemos avaliar a grande influência que a religião católica já exerceu sobre a língua portuguesa.
Dorô não resistiu: “O difícil será convencer meu patrão de que todos os dias da semana são de festas... religiosas ou profanas... sim, profanas, por minha conta e preferência...”
Na LanchoNET, a língua portuguesa sempre está em festa!!
Revista Língua Portuguesa. Editora Segmento.
Revista Língua Portuguesa. Etimologia. Editora Segmento.
Miguel Dias Filho, “cozinheiro”. Natural de São Sebastião do Paraíso, sul de Minas Gerais, servidor público. Engenheiro Civil e Administrador de Empresas. Especialista em Gestão Ambiental e Direito Tributário. Poeta por necessidade, escritor por vocação.
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